Primeiro amor

O primeiro amor. 
Seja em que idade for, o primeiro amor nunca se esquece. Pelo menos, para mim terá sempre a sua devida importância.
Eu vivi o meu primeiro amor aos 18 anos, mas já o conhecia há alguns anos. Estava a tirar a carta de condução quando nos reencontrámos. 
No Verão de 2017, mais propriamente a 17 de agosto fizemos o exame de condução, juntos. And there you go. 
É fácil de imaginar quão bom pode ser um namoro jovem de verão, o primeiro amor de ambos. Vivi tudo tão intensamente e acredito que ele também.
Em setembro voltei para Coimbra, uns meses mais tarde ele foi para o Exército. As semanas seguintes não foram as mais fáceis da nossa relação mas também não foram definitivamente as mais difíceis. Durante a recruta não podíamos falar com a mesma frequência, estávamos juntos aos fins-de-semana mesmo sabendo que ele estava esgotado psicologicamente e fisicamente. Era um amor fresco, mas ainda forte o suficiente para aguentar estes contratempos. 
Infelizmente, não foi sempre assim.
Para uma primeira relação séria, com as nossas idades, não tivemos propriamente o caminho facilitado. E atenção, eu sei que nenhuma relação é fácil! Simplesmente imaginem as dificuldades que por vezes encontramos numa relação, adicionadas à imaturidade e à inexperiência de uma primeira relação, a primeira pessoa com quem aprendemos a partilhar tudo. 
Num período de tempo de pouco mais de um ano e meio, passámos por muita merda. Não necessariamente por ordem cronológica, passo a elucidar-vos.
No fim julho de 2018 eu estava esgotada, destruída emocionalmente e psicologicamente após o primeiro estágio da licenciatura. A nossa relação ficou severamente afetada nessa fase. Não me sentia a mesma pessoa, não tinha vida social, não tinha capacidade para lidar com tudo o que me foi exigido, não consegui refugiar-me nele, apesar das suas tentativas. 
Os meus pais separaram-se, eu mudei de casa. Ele ajudou-nos nas mudanças, ajudou-me em tudo quanto deixei.
Decidimos fazer a nossa primeira viagem juntos, mais propriamente passar a passagem de ano com a família dele. Uma data de ocorrências não permitiu que estivéssemos juntos à meia-noite. A entrada em 2019 sucedeu-se a 5 metros de distância dele e comigo de cara lavada em lágrimas. Pois é. Não é difícil de compreender que não correspondeu às nossas expetativas. Até hoje, acreditamos que foi um presságio para o fim da nossa relação.
Ambos fomos sujeitos a cirurgias, ambos tivemos de recuperar dessas cirurgias, na companhia um do outro. Ele ficou de baixa durante meses e, eventualmente, desistiu do Exército. Estar tanto tempo sozinho em casa, e a indecisão sobre o percurso que iria tomar, a incapacidade de tomar uma decisão, destruiu o rapaz ambicioso pelo qual me tinha apaixonado perdidamente. 
Inevitavelmente, destruiu-me a mim também. O meu percurso estava definido desde 2016, sabia que tinha de terminar a minha licenciatura. Tinha tudo planeado, ao contrário dele que estava sem saber como prosseguir a sua vida. Não fui capaz de o ajudar. Falhei como namorada. Falhei como pessoa. E terminei o namoro, na pior fase da sua vida. 

Não me culpo pelo fim da relação. Quando uma relação acaba, a culpa é dos dois. Sofremos os dois, muitas vezes. Sofremos sozinhos e abraçados um ao outro. Dissemos palavras que não devíamos ter dito um ao outro. 
Prolongámos o fim da relação por demasiado tempo. E não minto se disser que ainda penso nele e no quanto as coisas podiam ser diferentes agora que somos mais maduros, mais experientes, mais crescidos. Já não relembro as memórias da mesma forma. Reconheço onde errei, sei quando e como o magoei. 
Ainda assim, nesses momentos, vale sempre a pena recordar a belíssima música de Rui Veloso - As Regras da Sensatez:

Nunca voltes ao lugar
Onde já foste feliz
Por muito que o coração diga
Não faças o que ele diz

Nunca mais voltes à casa
Onde ardeste de paixão
Só encontrarás erva rasa
Por entre as lajes do chão

Nada do que por lá vires
Será como no passado
Não queiras reacender
Um lume já apagado

São as regras da sensatez
Vais sair a dizer que desta é de vez
(...)



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